FILMES

NOVO CICLO DE CINEMA ONLINE

 

A pandemia afectou inevitavelmente as actividades de programação de cinema regulares organizadas pelo ABC Cineclube. Com o encerramento das escolas secundárias em Março de 2020, fomos forçados a interromper a programação semanal que decorria na Escola Secundária de Camões.

Na altura foi decidido manter o contacto com o nosso público, através de uma programação regular online com dois filmes por semana. A programação, totalmente dedicada ao cinema português, teve um assinalável sucesso e permitiu mostrar a um público mais vasto algumas obras menos conhecidas do cinema feito em Portugal.

Em Outubro, conseguimos retomar a nossa programação regular às segundas feiras no Auditório Camões que se estendeu até ao novo encerramento das escolas e que culminou com as três sessões de homenagem ao Henrique Espírito Santo.

Com o novo encerramento das escolas, o ABC Cineclube e a Escola Secundária de Camões decidiram retomar as sessões online a partir do dia 11 de Fevereiro, estando programados filmes até ao dia 1 de Abril de 2021. Os moldes serão similares aos do anterior ciclo online: serão colocados na página da Escola Secundária de Camões dois links por semana (às segundas e quintas feiras), acompanhados de pequenos textos introdutórios a cada filme. Cada link estará activo durante uma semana.

Desta vez a opção tomada foi a de realizar pequenos ciclos online procurando familiarizar os espectadores com obras menos conhecidas. Procurámos encontrar uma programação variada e de qualidade que abranja géneros variados, curtas e longas metragens, documentário e ficção, com origens muito diversificadas. 

 

Esperamos que seja do vosso agrado.

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Frágil Como o Mundo (2001), Rita Azevedo Gomes

 

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.

 

Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.

 

Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas."

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

Rita Azevedo Gomes(1952-) é uma realizadora portuguesa cuja obra tem vindo, num crescendo,  a ganhar um culto nacional e internacional, conferindo-lhe um prestígio cada vez maior, correspondido por vários prémios, que o início relativamente tardio da sua carreira parecia não augurar. Tendo uma formação em Belas-Artes, o que se nota e é bem patente no cuidado estético com que aborda a construção dos seus filmes, criando ela própria cenários,figurinos, vestuário,etc, embora desde cedo se tenha movido em terrenos artísticos que orbitavam também em torno no cinema, só, de facto, em 1990 vem a realizar o primeiro filme, contra ventos e marés vazias financeiras, O Som da Terra a Tremer, com José Mário Branco e Manuela de Freitas. Nele, já estão presentes algumas das dimensões que os seus filmes posteriores irão desenvolver, como o já mencionado apelo estético, a relação com a literatura e a poesia,não como elementos decorativos mas como elementos constituintes do acto cinematográfico, num mergulho profundo das forças da poiesis e de encontro com o mundo, a que se junta uma experiência profunda do passional,acompanhada por quadros pictóricos que ora oscilam entre um olhar renascentista ora romântico como, é bem visível, por exemplo, nos filmes A Vingança de uma Mulher (2012) e A Portuguesa (2019), este baseado num conto homónimo de Robert Musil, filmes que,de certo modo, já representam uma consagração, embora não tenham aliviado de todo os obstáculos iniciais enfrentados para realizar os seus filmes. A par e complementarmente aos seus filmes de ficção, Rita Azevedo Gomes  tem realizado alguns documentários,entre os quais o magnífico,assim o considero, Correspondências(2016), baseado na correspondência trocada entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner, que nos dão 19 anos de um diálogo poético,político e histórico, mais documental, mas sem abdicar,mais uma vez, do singular,quase solitário,cruzamento da palavra e da imagem de cada um deles, nessa textura de uma voz que habita antes,para além e entre as palavras e que se torna relâmpago de revelações intensas e profundas.

A ideia do filme Frágil como o Mundo começou por uma notícia lida nos jornais, de um suicídio de dois jovens apaixonados, no Alentejo,um rapaz e uma rapariga.Esse acontecimento vai ser o ponto de partida para o filme, não no sentido de o compreender sociológica ou psicológicamente, mas de lhe dar um sentido passional, poético, por vezes,quase mítico,na neblina(e como ela é filmada de forma soberba) interior e exterior que habita e fragiliza os sentimentos mais profundos do ser humano e,em particular,dos jovens muitas vezes tragados por um desejo inexplicável de absoluto.

Num cenário intemporalmente romântico como é a serra de Sintra, nos seus recantos húmidos e prístinos,mais habitados pela imaginação do que pela razão, com uma fotografia ímpar de Acácio de Almeida, num preto e branco não muito contrastado, povoado por névoas,nevoeiros e mistérios, o filme torna-se oracular,marcado por textos poéticos que vão desde escritores e poetas como Agustina Bessa-Luís, Cecília Meireles, Luís Vaz de Camões, Rainer Maria Rilke, Bernardim Ribeiro até à de Sophia de Mello Breyner Andresen, que vai dar origem ao título do filme.

Frágil como o Mundo é um filme que é um ensaio poético, de uma beleza perturbadora, sobre a vida e a morte, sobre o sonho e a realidade, sobre a imaginação e a natureza, sobre a fragilidade que habita o mundo de quem na floresta mágica, onírica da paixão se torna presa e prisioneiro de um predador terrível e absoluto: o sublime! Como disse Kant, na Crítica da Faculdade de Julgar, o sublime não tem limites, não tem forma:tal qual a morte!

José Esteves, professor

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (António das Mortes), Glauber Rocha, 1969

 

Glauber Rocha (1939-1981) foi um dos cineastas mais importantes do Cinema Novo brasileiro, contribuindo, na primeira linha, para a revolução estética, formal e material, e política que o mesmo representou. O abalo foi tão forte que se poderia quase dividir o cinema brasileiro, como muitos outros por esse mundo fora,entre o período AC (antigo cinema) e CN (cinema novo), embora, como em todas as coisas esquematicamente dualistas, se corra o grande risco de ser redutor.

A verdade inapelável é que o contributo de Glauber Rocha foi dos mais poderosos,tormentosos e intensos dessa transformação total das regras, uma espécie de fome criativa e crítica, uma fome social e política, para me socorrer do seu célebre texto, A Estética da Fome, que todas as pessoas que queiram compreender o Cinema Novo brasileiro, e o de Glauber Rocha em particular,deveriam ler. Citando: “De Aruanda a Vida Secas, o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou,excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, escuras; foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo hoje tão condenado pelo Governo do Estado da Guanabara, pela Comissão de Seleção de Festivais do Itamarati, pela Crítica a serviço dos interesses oficiais, pelos produtores e pelo público - este não suportando as imagens da própria miséria.”

Se há estética da e na fome,Glauber Rocha mostrou-a como poucos o terão feito! E mostrou-a na boca aberta, escancarada, que grita, que ameaça, que explode,como granada,  em palavras e gestos que são os de quem traz uma fome secular, que digo!?, milenar, e no seu estômago sente um enorme vazio, de pó seco, como esse Nordeste brasileiro, de sertão agreste, por onde começou a colonização europeia e onde entre as primeiras capitanias e os coronéis, grande parte dos ciclos económicos, citados por António das Mortes no filme, se deram.

Dos ciclos,no Brasil,  do ouro, dos diamantes, do cacau, do algodão, da cana-do-açúcar e da borracha(ou mais actualmente da soja e da madeira) o que ficou sempre foi um grande ciclo de fome e miséria, que Glauber Rocha mostrou numa sucessão de filmes ávidos de verdade e justiça, filmes como Barravento(1962); Deus e o Diabo na Terra do Sol(1964);Terra em Transe(1967) ou o filme de hoje, que são quase como evangelhos cinematográficos. E digo evangelhos porque há um sentido profético e visionário neles, como se proviessem de um imenso jejum e de um imenso deserto,como as visões dos santos e profetas(é ler o romance de Thomas Mann, O Eleito).

António das Mortes, como é mais habitualmente designado, que foi vencedor do Festival de Cannes, é o apogeu do que Glauber Rocha queria da fome do seu cinema,indo buscar António, personagem do Deus e o Diabo na Terra do Sol, que vai para a cidade de Jardim das Piranhas(que título!), a soldo de um político arrivista,para enfrentar um bando de cangaceiros.Qual faroeste do nordeste, entre personagens típicas de um microcosmos nada longe das povoações dos filmes de faroeste, o que vamos assistir é um duelo de vidas e mortes, de consciências e inconsciências, numa espécie de quadro teatral popular medieval, por onde santas e diabos, passam num cortejo de alucinações e êxtases, como uma procissão a cheirar a pólvora e a enxofre das zonas mais ínferas do mundo. Nessa cidade de piranhas, os diversos poderosos, não se vislumbra nenhum jardim, a não ser o da violência,  da exploração,  da morte, uma espécie de Jardim das Delícias, que Bosh não desdenharia.

Misturando e mestiçando culturas (a indígena, a europeia e a africana subsaariana)  numa linguagem alegórica e quase hipnagógica, o filme mostra e mostra-se,nas contradições de todas essas culturas, misturando o ascetismo com a exuberância carnal e sensual, de uma forma quase barroca, essa vaidade da riqueza no meio da pobreza. Mas acima de tudo, mostra “a conversão” de António das Mortes que, depois de trabalhar para os poderosos, ganha consciência de que está do lado errado e que a justiça e a lei dos ricos não é mais do que um dragão que cospe fogo e balas sobre os mais pobres.Numa carnificina devoradora, entre danças e cantos, orixás e santos, António das Mortes é talvez um São Jorge que leva no corpo e na mente um dragão morto, que é, afinal, ele próprio.

Sabe-se que o filme foi, de certa forma,a resposta de Glauber Rocha à ditadura militar entretanto instalada no Brasil, ditadura, como é conhecido,que teve um plano para eliminar o realizador. Afinal, as “piranhas” existem mesmo...

José Esteves, professor

 

Em complemento ao filme, exibe-se a curta, Conserva Acabada(1989), de João de César Monteiro.

Uma dúzia de minutos de uma diatribe e um manifesto anti-indústria conserveira...de filmes. Entre filmes enlatados e pernas à solta e à vista, apetece dizer, como Léo Ferré:”Libérez les sardines”ou...os filmes de latas e outros coletes de forças e,assim,sucessivamente, parafraseando o JCM!

Ponto final, paragraphe!

José Esteves, professor